29 de dezembro de 2011

Obsessões do meu ipod (31)

Alguém chamou a isto “accordgasm”. E, de facto, assim parece. É um jovem ucraniano, de nome Alexander Hrustevich, que assim interpreta um trecho do Verão de Vivaldi.O tremelicado é muito mais fácil de fazer com um arco de violino do que com o pesado fole e chave de baixos de um acordeon.

      Post 808     

27 de dezembro de 2011

Preparando os cursos da primavera

SabedoriaO Tralapraki, num apelo irresistível à cultura do país (e também das pessoas que estão dentro dele), apresenta desde já o seu boletim de primavera relativo aos cursos seguintes:

FILOSOFIA I - Teologia das Conveniências

Sumário:  Uma primeira abordagem a Deus (mas de modo que Ele não se aperceba). Explicação sumária do mistério da Santíssima Trindade e do mistério das finanças públicas. Você, por acaso, sabe que diabo se passou com o dinheiro? Eu também não sei, mas o idiota que vai dar este curso deve saber. Saiba ainda por que razão não existe mérito nenhum no facto de Deus escrever direito por linhas tortas. Qualquer aluno faz o mesmo, não só em relação ao Direito, mas em relação a todas as outras disciplinas... Vocês já viram a caligrafia do Nuno?  E as Traduções do Inglês que ele faz? 

Mecânica e Electricidade II

Sumário: Você sempre quis saber a razão por que não se pode fritar um ovo numa guitarra eléctrica ou enviar uma mensagem curta (sms) com um massajador íntimo? Aliás, você nem sequer sabe o que é um massajador íntimo. Fique sabendo que não se pode enviar uma sms com um destes massajadores, pelo simples facto de que o massajador íntimo já é, em si mesmo, uma bela mensagem. Agora V/ pode aprender tudo isso e muito mais, sem sair de casa e, com um pouco de sorte, sem mesmo sair da cama.

Sexualidade III

Sumário: Procedimentos para conseguir um pénis mais apelativo e, portanto, uma conta bancária maior. Este curso ensina-lhe com quantos paus se faz uma canoa e com quantas varas se faz uma  camisa de onze varas, sem esquecer a verdadeira função do pau de virar tripas. Tudo à tripa forra.  Você tem a certeza de que sabe usar um preservativo, ou, pelo menos, de que contratou uma parceira que sabe? Modos de pescar preservativos, quando eles ficam lá dentro. Para os mais jovens, o curso apresenta uma interessante introdução ao órgão genital feminino, numa perspectiva cavaleira.

Literatura Medieval IV

Sumário: As Cantigas de Amigo e  as Queixas de Marido, de João Ruiz do Castelo do Bode. Os Alunos são encorajados a escrever e enviar uma Cantiga do Bandido  à esposa boazona do grandão que mora por cima. Todo o material do curso é gratuito, inclusive a escada de emergência, a manga de bombeiro e uma caixa de primeiros socorros.

Introdução à Biologia e Miudezas II

Sumário: Este curso ensina tudo sobre aqueles órgãos de que ninguém fala porque nunca dão chatices: glândulas vilas molenas (José Afonso em Mandarim), fígado de bacalhau, pé de atleta, mão de vaca, palma de maiorca, espírito de porco, nove e tal, calcanhar de aquiles, corações de atum, tripa forra, língua da sogra, etc. Fique a saber a razão por que temos um baço e não temos um lustroso. e que quanto mais baço é o baço, menos transparentes são as atitudes dos nossos políticos. 

Você sabia que há homens que têm umas glândulas mamárias fantásticas, mesmo ao seu lado,  e não sabem o que fazer com elas, e até conseguem adormecer? E que, pelo contrário, há outros que não têm nada que preste e que, mesmo assim, ficam em casa todas as noites, e fazem milagres??  Pense nisso e sinta a tranquilidade de saber que o mundo nunca se vai virar. Boas aulas.

    Post  807           (Imagem daqui)

26 de dezembro de 2011

O ano que aí vem

feliz_ano_novoO nosso Primeiro-ministro afirmou que 2012 é o ano de todas as reformas e que tudo ficará pior antes de melhorar. E aquilo pareceu-me um comentário de Ehrman ou um corolário de Murphy. Cá por mim, não tenho expectativas negativas sobre o próximo ano, pois considero que expectativas negativas dão resultados negativos, ao passo que as expectativas positivas também. “Tudo ficará pior antes de melhorar” é um corolário puramente mecanicista, já que não nos são fornecidas dinâmicas e momentos de mudança. Tudo bem, sabemos que há uma tendência para o dia dar em noite e o preto dar em branco (como ficou provado em Michael Jackson) e que ao pé de um alto está sempre um baixo. O problema é saber quanto precisam as coisas de piorar para depois melhorar ou, dizendo de outro modo, quanto precisaremos ainda de empobrecer neste nosso caminho para o enriquecimento. E agora tudo isto me recorda uma banda desenhada de Malpertuis, onde um homem passa dezenas de quadrinhos a descer escadas de modo compulsivo, até que, no último quadrinho, chega finalmente ao topo de uma torre, de onde avista um estonteante horizonte…

Quanto às reformas apregoadas, não poderia estar mais de acordo. É preciso mudar tudo, para que tudo fique igual. Se deixarmos as coisas como estão, elas tenderão a modificar-se sozinhas, embora não necessariamente para pior. Obviamente, há que mudar muita coisa, sobretudo o que já está suficientemente bem. Se todas as coisas que estão bem forem mudadas, não correremos o risco de que elas piorem por si mesmas, antes teremos a certeza de que fomos nós que as piorámos, o que não deixa de evidenciar um ascendente de nós sobre as coisas.

Enfim, acabei agora mesmo de ver na TV que a crise acaba, de facto, no próximo ano. Mas também é no próximo ano que acaba o mundo. Seria de espantar que a crise sobrevivesse ao fim do mundo. Prefiro que o mundo sobreviva ao fim da crise, nem que eu tenha que pagar mais uma multa por isso…

   Post 806        (Imagem daqui)

23 de dezembro de 2011

Será avaria?

Hoje, quando acordei, acendi o candeeiro da mesa de cabeceira e reparei que a luz está mais amarelada…

  Post 805 

21 de dezembro de 2011

Exame de Português para o 11º ano Profissional

gramaticaAlvo: Alunos do 11º ANO, FINALISTAS A TENDER PARA O PRE-UNIVERSITÁRIO

Nome _____________Nº____ Turma ____

Notas: 1. É provável que não reconheças a sala onde estás, pois desta vez, como podes ver, há dois gajos na secretária, em vez de um. Não fiques preocupado pelo facto de eles não estarem a fim de falar contigo, nem de te aborrecer com o trabalho de casa. Milagres acontecem.

           2. É aconselhável que estejas sentado no lugar certo e à hora certa, sem o que poderás perder definitivamente o ensejo de executar a prova e de chegares a tempo ao almoço. Repara se tens à tua direita o Francisco Pé de Vento, à esquerda o Nuno Alguidares, atrás de ti deve estar a Mónica Lupas e à tua frente a tua vizinha Sarita, aquela das mamas grandes. que uma vez te pediu para ires ao cinema com ela e tu confundiste e foste parar à Baixa da Banheira, ainda hoje não sabes bem como.

           3. Coloca em cima da mesa os teus objectos pessoais: telemóvel, skate, gameboy ou nintendo, dois ou três cds com as cascas rachadas, etc, para te sentires mais reconfortado. Se tiveres um bilhete de identidade, podes colocar também.  Não te esqueças que aqui tens mesmo que escrever com caneta ou esferográfica e não com corrector. Tenta acertar no papel de prova que está à tua frente. Boa sorte.

I. LÊ O TEXTO QUE SEGUE: (texto é esse amontoado de palavras que vem a seguir. Podes reconhecê-lo facilmente porque te dá náuseas e pode trocar-te os olhos).

TEXTO >>> Olha, Marília, as flautas dos pastores

                      Que bem que soam, como estão cadentes!

                      Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes

                      Os Zéfiros brincar por entre as flores?

(Ufa, pronto, acabou. Agora vem aí uma caixa com vocabulário, ok?)

Caixa com vocabulário:

Flautas = Instrumento parecido com um pau, que se toca soprando numa das pontas.

Pastores = Aqui, não são padres. São uma espécie de zombies que andam sozinhos pelos montes, atrás das cabras e tocando as tais flautas. Seria mais incómodo levarem o piano de cauda da tua tia Gioconda.

Cadentes = afinadas, ao compasso. (é música, portanto)

Tejo = Não, não é o teu cão, embora, por vezes, ele pareça que, de facto, sorri. O Tejo é um rio que fica lá para o sul.

Zéfiros = O teu Professor também não sabe o que são, mas não deve ser nada de macho, pelo jeito com que brincam com as flores.

I. AGORA TENTA RESPONDER A ESTAS PERGUNTAS.   BASTA ESCOLHERES  A QUE TE PARECE MELHOR, POIS O IDIOTA DO TEU PROFESSOR JÁ RESPONDEU E NEM SEQUER SE APERCEBEU DISSO:

1.1. Gostaste do texto?

      A) Gostei muito, embora não tenha compreendido tudo.

      B) Acho que sim, porque a Mónica estava contente e ela é boa nisto.

      C) Gostei mais ou menos, mas podia ter mais acção.

      D) Sim, gostaste. (No caso de optares por esta, repara que a pessoa do verbo poderá estar incorrecta)

1.2. Quem é Marília?

      A) É a minha prima de Barrô.

      B) É a prima do Camões

      C) É a prima do Bocage

      D) É uma tipa qualquer que andava por lá atrás das cabras.

1.3. Serias capaz de escrever um poema como este?

      A) Não. Nunca teria coragem para tanto.

      B) Numa boa. Eu sou muito cencíbel à poisia.

      C) Talvez.

      D) Nenhuma das anteriores, nem das seguintes, se as houvesse.

COMPOSIÇÃO  (Composição é um emaranhado de palavras, mas, desta vez, escritas por ti. Tenta colocá-las umas atrás das outras, hierarquizando o teu texto e usando, se possível, o sujeito, o predicado e os complementos directo, indirecto e circunstanciais, se os houver. No entanto, evita colares-te demasiado à fórmula que te sugiro, escrevendo, por exemplo: "O sujeito predicou um complemento directo ao complemento indirecto, lá no complemento circunstancial de lugar". Esta frase, embora correcta na sua estrutura, não apresenta muita criatividade.)

II. Agora, para terminar, (pois já estás aqui sentado há mais de uma hora e deves estar ansioso por ires relembrar como era o sol), escreve qualquer coisa para o idiota do teu professor se entreter no fim de semana. Não o massacres muito, e tenta entender a mania que o tipo tem de querer ver as palavras todas direitas. Faz-lhe a vontade, com os diabos, um dia não são dias e eu sei que tu és bondoso quando te esforças.

Se não te lembras de nada importante, telefona ao teu pai, à tua prima Marília ou ao teu tio Faustino que sabe histórias à brava. Além disso, há quanto tempo é que não ligas ao teu tio Faustino? Aproveita e pergunta-lhe se está melhor da perna que tu lhe partiste a semana passada com um toquezito sem importância. (Os mais velhos têm tendência para serem quebradiços).Tenho a certeza de que o teu tio vai ficar tão sensibilizado como tu ficaste quando lha partiste...

Lembra-te:  deves escrever, pelo menos duas linhas e não podes entregar o cd que trouxeste, em vez do papel da prova.

As provas são anónimas. Escreve o teu nome só no cabeçalho da prova, mas faz um desenho qualquer e depois diz ao teu professor o que fizeste, para que ele possa reconhecer a tua prova e dar um jeito de te passar mais facilmente ainda.

(Boa sorte e, se por acaso estiveres com a tua prima Marília, diz-lhe  que o Tomaz Dirceu Gonzaga quer fazer um poema com ela, uma noite destas…)

     Post 804     (Imagem daqui)

19 de dezembro de 2011

… que venham de novo os “paus”

pausSe por algum motivo, ou mesmo por mais do que um motivo, tivermos que abandonar o euro, isso não fará grande mossa nas nossas vidas. Todos temos melhores recordações do escudo que do euro. O euro nunca foi muito popular na minha aldeia. O que eram 100 escudos? (100$00, lembram-se?) Ora, cem escudos eram cem paus, cem marrecos, cem marreis, etc, enfim, o escudo tinha milhentos apelidos, cada um mais carinhoso que o outro. E 100€? O que são 100€? São só cem aéreos (que metade da nossa população nunca lhe soube sequer dizer o nome, e a outra metade nunca soube quanto realmente valiam).

Que venha o escudo, assim mesmo, o escudo ou o pau, enfim, o luso, o magriço, o tuga, o Zé, qualquer coisa será melhor que o euro. O euro só nos trouxe dores de cabeça. Convenceu-nos de que éramos ricos, pôs uma dúzia de ovos a valer 400 paus e a gente pagou, quando 5 paus chegaria para pagar cada ovo. Que venham, pelo menos, 150 marreis por cada aéreo e seremos felizes. Muito mais do que somos agora… Tenho dito!                                                                                                 Post 803 

18 de dezembro de 2011

Da (in)disciplina (2)

carneiro (…) E o carneiro, apesar das ameaças do Afonso, continuava a amar, ou a odiar (que também entre os carneiros o amor anda sempre próximo do ódio) aquela triste porta…

(Uma história de carneiros)

E foi então que o Dr. Teotónio falou, expondo ao foco principal da sala a sua careca luzidia. A sua voz estava fluida, melada, mas grave. Não havia um leve traço de sorriso na sua boca, não havia nela um fugidio apontamento de ironia ou de sarcasmo.

-“O pai de um amigo meu, homem calmo e pacato, lá de cima do Caramulo, conviveu durante vários anos com um carneiro marrão que lhe destroçava sistematicamente, a marradas de aríete, a porta da cozinha. Nunca o Afonso (chamemos assim ao dono do carneiro) soubera a razão da sua (do carneiro) predilecção por aquela porta. Imaginando que se tratava da cor, foi repintando a porta até esgotar todo o leque de cores da drogaria do Machado. E o carneiro, apesar das ameaças do Afonso, continuava a amar, ou a odiar (que também entre os carneiros o amor anda sempre próximo do ódio) aquela triste porta que, da sua configuração original já só possuía o Z das duas travessas e da oblíqua que as unia. As tábuas foram sendo substituídas e pintadas mês após mês, na sequência

 

das eternas investidas do aríete.

Vendo o triste pastor que com enganos, perdão, vendo o triste pastor que não ganhava para portas, resolveu pendurar naquela um pequeno conjunto de avisos, escritos sobre papel almaço, com carvão do borralho, na mais fina caligrafia escolar, numa linguagem doce e envolvente:  ‘Senhor Carneiro, por favor, tente evitar marrar na porta’, ‘Senhor Carneiro, por caridade, abstenha-se de me partir a porta’ e mais dois ou três do mesmo teor… Como reforço positivo, o Afonso pregou, de dentro para fora, cinco ou seis dezenas de pregos, por forma a que os seus bicos ficassem ligeiramente proeminentes do lado exterior, mais ou menos isto (aqui o Dr Teotónio apontou com a unha do seu indicador uma curta porção do seu polegar).

Para abreviar, o certo é que o marrão foi espaçando as suas marradas e, em menos de uma semana, perdeu totalmente o hábito. É por isso que eu continuo convencido de que a disciplina se constrói com alguns cartazes carinhosos e delicados, espalhados com amor por toda a escola.”                                            

    Post 802       (Imagem daqui)

(Contado por Eleutério Santos)

16 de dezembro de 2011

Da (in)disciplina (1)

indisciplina(Um texto com muita cagança)

As escolas têm vindo a produzir documentos, mais ou menos estóicos, para tentar acabar com a indisciplina no sistema. Chegou ao meu Grupo um desses documentos. Foi analisado, dissecado, verberado, aplaudido, vilipendiado, exaltado. Ninguém se entende lá muito bem neste campo lodoso.

Era todo falinhas mansas, que isto de mexer na espúria requer tacto. E tudo pela positiva, porque os pais das “criancinhas” nunca aprenderam a forma negativa dos verbos. Em vez de simplesmente “não perturbar o andamento da aula”, lia-se “evitar perturbar o andamento da aula”. E assim por diante…

Não pensem que não aplaudi o documento. Ah, como aplaudi! Reconheci nele um texto medricas, nada impositivo, como a pedir perdão por simplesmente existir. Mas era a primeira vez que um normativo mais ou menos sério era produzido. Era o primeiro reconhecimento de que há indisciplina e de que esta é incompatível com qualquer aprendizagem robusta. Saudei o texto porque aconteceu e se mostrou a todos. Desprezei-o, no entanto, por se acanhar e humilhar na forma de dar ordens, como se “cumprir” continuasse a ser apenas uma conveniência e jamais uma obrigatoriedade. Mais uma vez se deixava ao critério dos professores a responsabilidade de agir em conformidade, sendo que “agir em conformidade” significa, ainda e sempre, tratar cordialmente potenciais malfeitores, como se de criancinhas inocentes, indefesas e desorientadas se tratasse.

O texto, embora finalmente coeso e atlético à defesa, continuava a tropeçar nas pedagogices e a borrar-se todo no ataque. E quando um texto baixinho se borra, inevitavelmente nos caga os calcanhares…   (continua)

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8 de dezembro de 2011

repescando tralices

burroO Burro de Orwell

Continuo a defender a escola pública una e vertical, avessa a fragmentarismos e competições bestas. O momento é, de novo, propício para relembrar isto, já que as escolas, feitas pequenas e médias empresas, refregam por melhores rankings, melhor nome na praça e melhores mercados. O mercantilismo na escola estatal alcança hoje uma taxa de defensores deveras preocupante…

(Imagem daqui)        Post 800    

5 de dezembro de 2011

Correcção ao post anterior

alegriaAfinal, foram apresentadas as gradações. Os cortes nos subsídios vão ser gradativos a partir dos seiscentos euros. O governo reconhece que seiscentos euros já é um bom salário (afinal são cento e vinte contos, que não é para qualquer um) e já vai prescrevendo um corte, ainda que ligeiro, aos intrigantes e obsoletos subsídios.

A partir de mil e cem, ninguém vê o padeiro. Isto alegra-me sobremaneira, visto que o pão engorda e, finalmente, sei, de um saber beatífico e comiserativo, que pertenço ao clube dos ricos e que poderei contribuir para derrotar a crise. E derrotar é sempre bom, nem que seja ao garujo*. Como ganho acima desse salário (e não admito que me venham, com risinhos abéculas, dizer que só ganho mais cinquenta ou cem acima disso, isso não importa, o que importa é que sou, definitivamente, rico) estou eterna e irretornavelmente colocado no clube dos heróis que, com a dádiva de dois subsídios anuais, farão um novo vinte e cinco de abril, cinco de outubro, vinte e cinco de novembro, primeiro de dezembro ou vinte e cinco de dezembro, que é quando um homem quiser…

Não só enaltecerei o egoooooooo, como salvarei o país, com tudo o que tem dentro dele, barcos e charéu e castanhas e azeite e lulas e potas e vinho verde e mafias e digeis** e portagens e ainda criarei um montão de feriados para ir passear aos domingos no supermercado***. A vida é bela e deus sabe o que faz.

*jogo de cartas ao garoto.

**tipos que põem discos nas boîtes.

***às vezes empolgo-me um bocado com a escrita…

    Post 799        (Imagem daqui)

2 de dezembro de 2011

A grande clivagem

rico_e_pobreA sociedade não está dicotomicamente dividida entre ricos e pobres. Nem entre feios e bonitos, nem entre inteligentes e estúpidos, nem mesmo entre sexualmente bem e mal dotados, embora esta última clivagem seja, entre todas, de longe a mais constrangedora. Não há mais maniqueísmo em nenhum destes tópicos. Todos somos diferentes na igualdade e semelhantes na diferença. Todos nos deixamos penetrar (em todos os sentidos, excluindo o sexual, por enquanto) por amplas gradações dos mesmos descritores sociais, todos partilhamos todos os parâmetros, todos comungamos do mel e do fel pessoal e social e não parece haver mais purezas absolutas, identidades perenes, individualidades monolíticas. Somos uma contaminação colectiva, embora não necessariamente recíproca.

Mas há uma dicotomia que prevalece. Só uma. A que separa os cidadãos que vão receber décimo terceiro e décimo quarto meses dos que nem a cor lhes verão. Ou, por outras palavras, há a fronteira inexpugnável entre as pessoas que recebem 1099 euros e as que recebem 1100. Os primeiros receberão por ano mais dois salários de 1099 euros (um total de 2198 euros) o que perfará 15 386 euros anuais. Os segundos terão auferido, no final do ano, apenas 13 200 euros, apesar de pertencerem ao grupo dos mais favorecidos, ou seja, os que ganham uns fabulosos 1100 euros. Ficou complicado? Maniqueísmo é complicado, senhores…

   Post 798      (Imagem daqui)